Pais têm receio de assumir o papel de careta

Educar nos dias atuais passou a ser um desafio ainda maior para os pais, pois precisam colocar em prática a paciência, a coerência, deixar de lado os preconceitos e saber lidar com a evolução e revolução tecnológica que coloca em risco o diálogo presencial entre os entes queridos. 
Rosely Sayão reflete um pouco sobre esse panorama e o dilema entre limites e exageros. 

Pesam sobre os adultos mais exigências de performance - que transferem às crianças - e há dificuldades em pôr limites, sem cair no exagero de regras. Em meio a isso, está a tecnologia, mensageira de um volume de informações difícil de processar. Se os desafios aumentaram, cresce a necessidade de pensálos. 

A composição das famílias mudou e a tecnologia chegou para ficar. Está mais difícil educar? 
Hoje é muito mais difícil educar os filhos. A própria palavra educar não era usada antes pelos pais: era “criar”, que significava tomar cuidados necessários para que o filho crescesse. Educar tem uma complexidade que levou pais e mães a quase se profissionalizar. Ao passar por muitas transformações de mundo, a família foi sofrendo interferências. Os adultos deixaram de ocupar o lugar central na família e os filhos é que passaram a ocupá-lo. Outra questão é que é preciso ser feliz a qualquer custo.
Não posso educar, dizer não. Cerco de cuidados para que seja feliz e isso impede a boa educação. 

Falta a adultos colocar limites? 
Os pais têm receio de assumir o papel de “careta” da família. Não querendo ser “caretas”, ultrapassados, querem ser mais próximos dos filhos, quase para trocar confidências. Fica difícil determinar limites e, quando determinam, são exagerados. Há regra em demasia na vida das crianças. 

Sobre o fato de o pai ter medo de ser “careta”, qual a origem? 
No nosso valor sociocultural de que é preciso ser jovem para sempre. Se o pai e a mãe assumem seu papel, é como se estivessem envelhecendo, e isso não é bom para eles.

As crianças têm celulares, tablets. Os pais lidam bem com esses recursos? 
Tenho visto dificuldades. Oferecer objeto tecnológico é legal para os pais porque a criança fica hipnotizada. Os pais estão com pressa. Ao mesmo tempo, dizem que é inevitável a tecnologia. Sim, assim como é inevitável que os filhos vão dirigir carros, mas na época certa. Quanto mais tarde, melhor. Tem muito mundo real para a criança descobrir. 

É importante que as crianças tenham a vivência do concreto? 
Para conseguir lidar bem com o virtual, é preciso conhecer o real e saber fazer a transposição. Vejo crianças com ausência de relacionamento com outras que têm canal no YouTube. É difícil porque elas não têm muitos relacionamentos para entender o que chama a atenção, o que pode magoar. 

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